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Choro por ti, Belterra ! Capítulo dezesseis

03/11/2015

Finalmente, às 3 da tarde, varamos na Estrada Um. O sol, grande laranja fosforescente, já declinava um pouco atenuado por trás das árvores e das casas de madeira que margeavam a estrada. Depois de percorrer, durante horas, as estradas ermas de Belterra, enfim eu esperava encontrar um cenário diferente. Afinal, chegáramos à mítica “Estrada Um”, onde ficava o centro de Belterra.

Diante de nossos olhos estendia-se uma avenida reta e longa, como todas as avenidas do mundo, mas, ao mesmo tempo, de todas diferenciadas. Já não era de terra, como todas as que avistáramos; entretanto, uma fina camada de poeira vermelha, que aderia ao solo, impedia-nos de afirmar que fosse asfaltada. Como boa parte das avenidas do mundo, a Estrada Um também tinha a sua praça arborizada. Mangueiras, seringueiras e outras espécies vegetais espalhavam-se nas margens e na grande praça central da cidade, à esquerda. Tudo praticamente limpo, bem-cuidado, mas, igualmente a todas as estradas que até então percorrêramos, a Estrada Um apresentava-se completa (e absurdamente) deserta. E o mesmo se pode afirmar da praça.

  Estrada Um, em Belterra, a avenida mais deserta do mundo

 

Diante desse quadro, tomou conta de mim (e, certamente, de papai, que continuava silencioso ao meu lado) o mesmo sentimento que deve ter tomado conta do poeta Fernando Pessoa quando, através do heterônimo Alberto Caeiro, escreveu:

“O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.”

 “Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo? [...]

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.”

Pois, de dentro do carro, só eu e meu pai no mundo, eu olhava para a paisagem desolada de Belterra, estranhamente organizada, como que alinhavada por mãos invisíveis, mãos divinas (ou satânicas?), onde tudo era e não era, parecia e não parecia, existindo ou não, fazia-se existir. Olhava e não via, ou melhor, as coisas que se apresentavam como reais pareciam mortas e, por detrás delas, uma outra vida – sentimental, imaterial, apenas sentida – fazia-se real.

“Há metafísica bastante em não pensar em nada”, pensei.

E continuei pensando, como que repetindo palavras ouvidas antes do útero materno: “Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos e a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, a nós, que não sabemos dar por elas. Mas que melhor metafísica que a delas, que é a de não saber para que vivem, nem saber que o não sabem? Às favas a constituição íntima das coisas, o sentimento íntimo do universo. Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum”.

A Estrada Um inspirara-me tais pensamentos.

Quando escrevia estas páginas, já em São Paulo, cercado pela multidão que corre – sem ter consciência disso – para o mais absoluto nada, uma filha de Belterra extraviada em São Paulo, fez-me essa afirmativa em forma de pergunta: “Ninguém nunca pensou no que há para além das estradas da minha Belterra?”. E isso me conduziu, novamente, a Fernando Pessoa, o poeta do mundo:

“O Tejo é mais belo do que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. O Tejo desce de Espanha e entra no mar em Portugal. Toda gente sabe disso, mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia e para onde ele vai e donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia”.

A maioria das cidades do mundo são maiores e mais populosas do que Belterra, mas, para essa amiga, não são mais importantes do que Belterra. Para ela, Belterra não é uma cidade invisível nem desabitada; pertence a menos gente, como o rio de Fernando Pessoa, e, justamente por isso, Belterra é mais livre e maior do que todas as cidades do mundo. Pois uma “liberdade” que se medisse não seria LIBERDADE.

Essas reflexões, ou melhor, esses pensamentos gerados “fora de mim”, ou no mais profundo do meu Ser, por isso mesmo fora do meu controle, deixaram-me ainda mais melancólico. Tinha agora, mais do que nunca, a dimensão da minha nulidade diante da grandeza das pequenas coisas. A tão pequenina e deserta Belterra era, certamente, a cidade mais viva e povoada do mundo, não importando que eu, em minha cegueira, não enxergasse as pessoas e a vida que escorriam perenes como o rio da minha infância, o meu Maró, o rio mais fino, comprido e sinuoso do mundo, que arfa agonizante e provavelmente desaparecerá antes mesmo de ser desenhado nalgum mapa, mas será sempre o Rio, o meu rio, o rio “da minha aldeia”, do meu mundo ameaçado de extinção pela selvática civilização globalizada.

Naquele momento, olhei para a Estrada Um e a praça deserta e compreendi que a verdadeira vida, que escorre como um rio sem começo nem fim, torna-se, em lugares como Belterra, invisível ao mero turista. O lugar se defende. O lugar não é um lugar. O lugar é uma música. E há uma música que soa na alma dos seres viventes e anima todas as coisas nesses lugares esquecidos. Uma música que o estranho, em seu passo apressado e na azáfama por coletar coisas, é incapaz de ouvir. Essa música é “o sentimento do mundo” (Carlos Drummond) ou o “mito” (Joseph Campbell). O mito é a música do mundo. Os lugares passam, os turistas passam, mas a música não morre nunca, apenas muda de timbre. Por isso que, nas terras arrasadas pelos tratores e as motosserras das “frentes pioneiras” do capitalismo predatório, ainda se ouve a mesma música, mas agora na forma sinistra de um uivo ou réquiem lamurioso, que parte das gargantas famintas dos desalojados.

Então penso:

“Cadê o povo de Belterra? Escondeu-se dentro de sua própria história? Recolheu-se dentro de sua teogonia? Esse povo parece se recusar a aparecer. Cadê o povo de Belterra? Talvez tenha cansado de ouvir a voz humana, com a sua fúria, sua vilania, malícia, arrogância. A Estrada Um está deserta, ninguém sentado na praça, só um vulto ao longe numa bicicleta, mas, ainda assim, de costas para nós, não podemos ver-lhe o rosto. Cadê o povo de Belterra, onde anda? A essa hora talvez rasteje pelas calçadas de Santarém, pedindo esmola ou emprego a preço vil. Cadê as crianças de Belterra, que já não brincam com bolinha de gude nem com sementes de seringueiras na frente das casas, como meu pai um dia brincou. As crianças de Belterra sonham com “tablets” e as mocinhas com celulares. E as mulheres de Belterra, que não circulam pela praça da Estrada Um? Há uma Igreja católica no centro da praça, mas ninguém entra e nem sai pelas suas portas e nem se ouvem cânticos. O padre deve estar dormindo nalgum lugar. Mas, onde? O que será que as pessoas confessam ao padre em Belterra? Quais os pecados desse lugar? A Estrada Um parece um primor de limpeza, mas não se veem os garis. Quem recolhe todos os dias as folhas que se desprendem das árvores da praça?”.

E concluo que não adianta perguntar, pois não há uma única pessoa visível para nos responder. Confesso que, naquela tarde, vendo a desolação que era Belterra, reconheci que tudo que lera e pensara sobre a Amazônia era insuficiente para explicar o que parecia ser o mais absoluto absurdo que o absurdo poderia produzir.

Para tudo que era canto que eu olhasse, deparava-me com o inexplicável. Coisa para se chorar e também para rir, como, por exemplo, o homem que, até que enfim, avistamos a uns cem metros depois. Um típico caboclo: forte, pele tostada pelo sol e olhos “de índio”, espichados e oblíquos, camisa branca, calça preta, crachá preso sobre o bolso da camisa, em seu uniforme de “fiscal de transporte”, como ele se apresentou quando, saindo do carro, dirigimo-nos até ele. Sisudo e taciturno, como que compenetrado de seu posto, olhou-nos friamente, com visível desconfiança. Como um toro de madeira postou-se. Nem mais uma palavra pronunciou, como se não ouvisse as minhas perguntas, mas amoleceu-se prontamente quando lhe pedi que nos desse a honra de postar-se ao lado de meu pai para uma foto, esboçando até mesmo um longínquo sorriso, que não esquecerei jamais, pois me pareceu que naquele sorriso débil consubstanciou-se o último laivo de cordialidade que ainda pode existir entre a estirpe oprimida da Amazônia e a figura do alienígena, em qualquer de suas versões: viajante, pesquisador, missionário ou o mero turista. Depois da foto, o homem sentou-se e desconsiderou a nossa presença por completo, mas, em seu semblante soturno e na forma como se manteve sentado em seu posto, parecia manter a mesma expectativa com a qual o encontramos. Expectativa de quê? Naquele exato instante, quer na Estrada Um quer na praça ou em qualquer outro lugar para onde lançássemos o olhar, não avistávamos sequer uma alma vivente e nenhum veículo automotor ou semovente. E isso exatamente às 4 da tarde, hora em que todas as cidades do mundo se retorcem e agitam ao final de um trabalhoso dia.

A insólita presença do “fiscal de transporte” e a ausência completa de transeuntes e veículos automotores na famosa Estrada Um deixaram-me completamente intrigado, chegando, numa espécie de síncope mental, na qual a minha cabeça girou e como que despencou na incerteza dos momentos de fraqueza, a pensar que aquele dia todo não passara de uma miragem na minha já extensa vida de peregrino pelas estradas, caminhos e valados do destino. Mas, olhando para papai, que, ao meu lado, apesar do dia já longo e exaustivo, mantinha o semblante arejado e os olhos espertos, não tive mais dúvida de que toda aquela loucura era real, contudo, coisas ainda mais absurdas aconteceriam naquele dia que se ia findando.

 

(Continua no próximo capítulo)


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