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Choro por ti, Belterra ! Capítulo treze

24/05/2015

Às vezes, o sentimento de desolação é tão grande dentro da gente que a gente fica mudo e, de repente, a alma ferve, estoura... A gente é então capaz de falar até com uma pedra, com uma árvore...

Assim me sentia naquela tarde sem tempo de Belterra, rodando lenta e suavemente pelas suas estradas incompreensivelmente desabitadas, mas prenhes de vultos e segredos.

A estranha estradinha, cheia de mistérios, que nos trouxera até ali, entregara-nos a um novo mistério, pois diante de nós víamos agora algo como uma estrada maior mas com aspecto de completo abandono; por ela veículos teriam passado um dia, uma vez que ainda se viam sulcos de pneus já cobertos pelo capim.

Deixei o carro ir parando e, por fim, desliguei o motor. Notei que, na verdade, estávamos diante de um cruzamento confuso de caminhos, um dédalo, uma encruzilhada. À esquerda, a estrada aparentemente abandonada, ladeada de mato ralo, mais larga que as anteriores mas que parecia findar-se mais adiante. Ao centro, a estradinha asfixiante, morrinhenta, que nos causara sobressaltos, seguia em frente e se perdia no sem-fim. À direita, enfim, um elemento novo na cena até então desoladora chamava a atenção: uma casinha aos fundos de um terreiro, coberta de palhas e toscamente cercada com tábuas, e, à sua frente, beirando a estrada, vasilhames vazios, com suas bocas voltadas para o céu, como que à espera de chuva.

– Ham, então aqui se bebe água! – disse papai, saindo de seu já longo silêncio.

Mas, pensei eu, onde estão as pessoas?

Como resposta, avistei, repentinamente, como que surgida de lugar nenhum, uma mulher de certa idade, à frente da casinha.

Como todas as mulheres (até aí, às 3 da tarde, havíamos encontrado apenas duas em nosso caminho!), esta era magra e tostada pelo sol, mas, evidentemente, não tinha a pose e o viço das “garotas de Ipanema”; ao contrário, a compleição franzina e ressequida da mulher parecia decorrer de uma força inexorável e imaterial, não explicada por qualquer ciência – até porque a “ciência”, na busca de clientela mais rica, costuma se aboletar no conforto das grandes cidades e pouco se interessa pelas vidas largadas a esmo no coração da floresta.

 

Oasis de vida e vasilhas vazias em Belterra

 

Ao ver-nos, a mulher aproximou-se de nós sorrindo. Como as anteriores, era magrinha e frágil, mas, embora tivesse a mesma pele ressequida pelo sol inclemente do equador, o seu sorriso, aberto entre as rugas do rosto, cintilava como as águas de uma fonte a jorrar no meio de um deserto. Aquela mulher pareceu-me um oásis de confiança e vida cercada pela desolação humana chamada Belterra.

Sem demonstrar qualquer receio, falou-nos:

– O que houve? Parecem perdidos.

Retomando o seu costumeiro bom-humor, papai respondeu:

– Perdidos não, só um pouco desorientados, pois quem anda sem rumo nunca se perde.

– Mas para onde vão? – insistiu a boa mulher. Mulher, sim, pois, enfim, eu tinha certeza de que não estava a andar numa cidade fantasma. Estava diante de uma mulher de verdade, de carne e osso, e via, em detalhes, os pequenos estragos que o tempo faz na pele de uma pessoa, misturados às cicatrizes que outras pessoas e as coisas realizam. No fundo de seu olhar brilhante, enxerguei as minúsculas ranhuras que as circunstâncias da vida lhe provocaram. Sob a superfície aparentemente translúcida de seu sorriso, vi as turvas correntes de uma vida de privações e abandono.

– A senhora pode nos dizer precisamente onde estamos e como chegar à Estrada Um? – perguntei-lhe.

– Não querem água? – perguntou a boa mulher, como se não tivesse escutado o que lhe indagara.

– Não, obrigado. Só queríamos que a senhora nos dissesse onde estamos e o que devemos fazer para chegar à Estrada Um – insisti.

– Entrem, bebam água! – disse a mulher, ela própria já se dirigindo à porta da casinha.

Estupefatos com o excesso de confiança da pequena mulher, não a seguimos. Olhei para o rosto de papai e ele correspondeu-me com um sorriso. Depois disse:

– Isso, filho, é coisa rara – mas não se moveu de onde estava.

Então compreendi que “rara” não era a mulher que estava diante de nós – aliás, destituída de qualquer formosura e desenxabida como todas as que avistáramos até então em Belterra. Claro que a “cidade” devia ter as suas beldades, mas onde estavam elas? Ah, sim, “na Estrada Um”, onde estão todas as coisas e tudo acontece – foi o que pensei naquele momento. Papai se referia às outras qualidades de uma mulher, as que têm verdadeiro valor numa pessoa.

– Sim, onde já se viu uma mulher, sozinha, numa terra inabitada, franquear as portas para dois estranhos?! Santa loucura! – murmurei, confesso que ainda contaminado pelo clima de medo e insegurança que impera nas grandes cidades.

– Entrem, não tenham medo; sou apenas uma velha que não espera mais ninguém – insistiu a “velha” que tinha no máximo 55 anos.

– Obrigado, mas somos dois estranhos e não podemos entrar assim sem mais nem menos em sua casa; cadê o seu marido? – perguntou papai.

– Está ali – disse a mulher, apontando para a já referida estrada larga mas curta, recoberta de capim, para onde olhamos sem entender, pois nada avistamos senão mato e capim, até onde a vista alcançava; nenhum vestígio de gente humana. – Não há problema, podem vir, pois de lá meu marido está lá, de olho na Estrada e em mim.

– E o que seu marido faz lá? – ousei perguntar-lhe.

– Nada, pois ele é o vigia da Estrada, mas não passa mais ninguém por ali – explicou a mulher.

 Estrada por onde ninguem passa

 

 – Mas ele não se zanga por estranhos entrarem em sua casa sem sua permissão? – indaguei, deveras admirado.

– Não, pois ele sabe que quem entra nesta casa sem sua permissão só sai quando ele permitir – explicou a mulher.

Tais palavras deixaram-nos apreensivos, como a presa diante do alçapão do caçador, mas já era impossível não obedecer àquela frágil mulher, parecia impossível recusar sua gentileza sem incorrer em algo bem mais grave do que uma grosseria ou um erro, verdadeiro pecado. Acabamos indo em direção à mulher, que nos esperava à porta da casa. Entretanto, repentinamente, como que do nada, surgiu o homem.

– Sejam bem-vindos à nossa humilde choupana – cumprimentou-nos, já ao nosso lado.

E nós, ao mesmo tempo aliviados e apreensivos com a surpreendente aparição do marido, aceitamos o seu convite, e não me arrependi, pois foi um dos momentos altos daquele estranho e inesquecível dia em Belterra.

(Continua no próximo capítulo)


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