Rosélio da Costa Silva - Memorial 11 de setembro
Sábado, 09 Setembro 2017 12:55

Rosélio da Costa Silva - Memorial 11 de setembro

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Dias atrás estive no Memorial 11 de Setembro no sul da ilha de Manhattan. Já são 16 anos do atentado às Torres Gêmeas. O local das tragédias parece guardar em suas entranhas um código de barras capaz de resumir, silenciosa e resignadamente, a dimensão da dor que abriga.

As torres gêmeas do Trade Center, destruídas pelo impacto de dois jatos sequestrados em nome do terrorismo, eram impressionantes como desafio da engenharia, como símbolo do capitalismo e como marco de uma época.

A torre nova, conhecida como ONE WORLD TRADE CENTER ou simplesmente 1WTC, é a maior do hemisfério ocidental e está entre as 6 mais altas torres do planeta. Iniciada em abril de 2006, foi entregue em 2015 e seus 1776 pés de altura (cerca de 451 metros) fazem homenagem ao ano da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, ocorrida em 1776! Foi a resposta da América, rápida, à dura agressão sofrida: nós podemos fazer!

No lugar das duas torres originais, foram construídas duas piscinas. Juntas, seriam do tamanho de um campo de futebol. Em cada uma delas, uma queda d’água . É a maior queda d’água da América do Norte. A água sai da borda interna da mureta na altura do peito, como se saíssem de tubetes colocados um ao lado do outro, tomando toda a borda interna da piscina quadrada, e escorre por 10 metros pela parede interna até um grande assoalho de granito formando uma lâmina de água e depois despenca num buraco central.

É uma simbologia espetacular: nossas lágrimas derramadas rosto abaixo e, depois, sepultadas em algum lugar do nosso interior. É uma nova Estátua da Liberdade, em seu simbolismo, e seu parapeito é a tabula ansata que lista as vítimas fatais da tragédia. Ali, nessa placa de metal que recobre a mureta, parentes, conhecidos e desconhecidos de todas as partes do mundo, de todos os credos, depositam suas saudades, seus respeitos... É um canteiro de lembranças.

É uma forma de chorar sobre concreto mostrando que somos homens e que podemos derreter a dor em lágrimas mas que o desafio de resistir é tão tenaz quanto o concreto. Aquela água escorrendo diz do pranto da América para os olhos do mundo diante da barbárie.

Talvez isso não se repita jamais mas, com certeza, nem as traças do tempo consumirão a imagem da tragédia. Resistir é o nome do jogo. E o exemplo mais eloquente é a Capela de Saint Paul: inaugurada em 1766, resistiu ao grande incêndio de setembro de 1776 e ao desabamento das torres gêmeas em setembro de 2011 sem nenhum dano, nenhum painel de virdro quebrado, logo ali, do outro lado da rua, graças a uma figueira solitária que defendeu a Capela de 250 anos!

Mais adiante, ali próximo, no Battery Place, o Museu do Holocausto, mostra outra barbárie da história e, de novo, duas piscinas, menores, com o mesmo princípio, mesmo significado, como código de barras a preservar a dimensão e a dor da tragédia.


Nova York, 21 de agosto de 2017.

Quinta, 31 Agosto 2017 08:28

Rosélio da Costa Silva - Os Berkshires

Escrito por Rosélio da Costa Silva

É verão. Silêncio profundo ao amanhecer. A mata alta, esparsa, agasalha, embaixo, a regeneração natural para a perpetuação das espécies. É a mãe protegendo seus descendentes debaixo de suas asas. A mata rala, baixa, abana os galhos tenros num doce balanço natural. Não há ruídos. Pouco movimento de carros nas alamedas isentas de pessoas. Nos vários lagos, os engenhos não têm propulsão a gasolina. Caiaques, canoas, pequenos barcos puxados a remo, vela ou bateria, andam na lentidão de seus tempos e no compasso da modernidade do local. Há áreas elevadas no território mas a grande parte encontra-se entre 200 e 400 metros acima do nível do mar. É assim nos Berkshires, essa porção de terra elevada e ondulada, que cobre o oeste dos estados de Massachussets e Connecticut, nos Estados Unidos. Aqui, falo da parte de Massachussets, lado oposto à Boston.

Um silêncio absoluto invade todos os espaços da grande catedral verde da mata. Como amazônida, ainda tenho na lembrança o vozerio da floresta na noite escura: a conversa estranha de bichos não identificados, o coachar dos sapos, o canto das cigarras, a gritaria dos macacos, o gemido triste das árvores frondosas como sussurros fossem de um grande pesadelo, ecos e sons estranhos que se reverberam nos grandes espaços da floresta.

Nos Berkshires, não há floresta. Há mata onde árvores convivem com arbustos, baixos e ralos. Por ali vivem ursos, bobcats (um dos principais felinos silvestres da América do Norte) ao lado de perus selvagens, veados e uma população gigantesca de esquilos e de aves de nomes estranhos.

Um dia despertei cedo, por volta das 5 horas para ouvir melhor aquele silencio, tentar interpretá-lo. Abri uma nesga na cortina de pano grosso e vi um beija-flor nos degraus da escada de madeira da entrada da casa. Não estava com o comportamento assustado das aves que, entre uma bicada e outra, elevam o pescoço e reviram os olhos para monitorar predadores. Não estava, tampouco, a girar no ar com o seu voo ligeiro em busca de flores.

Estava de folga, sossegado, ouvindo o silêncio bom do local. Isso mesmo, silêncio bom. Encontrava-se em modo avião, desligado da rede, sentindo-se em casa, plácido e bastando-se a si mesmo, parafraseando Will Durant.

Os bichos grandes devem vagar pelos espaços enegrecidos pela noite em busca de água e comida, como fantasmas a procurar seus espíritos esquecidos de seus corpos a intimidar suas presas, a preparar emboscadas para o banquete da celebração da continuação da vida. Imaginar aqueles espaços cobertos de neve e com limitação de alimentos remete à condição humana, nas mesmas circunstâncias, no cuidado com provimentos para a manutenção da vida.

O que fazem os homens nos Berkshires? É área turística importante em todas as estações do ano àqueles em busca de sossego e paz. Mas é no verão que o calor convida para agitação de atividades ao ar livre: shows,música, exposições... artes em geral. A Sinfônica de Boston monta seu acampamento na região para concertos. Stockbrige, Lenox, Lee, Becket, Tanglewood, nomes difíceis de esquecer.

Os homens da região sabem que eles invadiram o lar dos animais: tomam as suas medidas de segurança e evitam grandes exibições ao ar livre próximo à mata, principalmente à noite. Apesar disso, não faltam histórias assustadoras de ursos e outros bichos.

Assim são os Berkshires: um espaço moderno dentro do primitivo numa convivência pacífica. Há respeito mútuo do homem com a natureza e, principalmente, do homem com a fauna e vice versa. Acredite. Isso existe.


Becket, Massachusetts, 14 agosto 2017.

Quarta, 27 Abril 2016 20:55

“Uber” et Orbi

Escrito por Rosélio da Costa Silva

O taxi convencional está pegando no pé do Uber, um serviço diferenciado de taxi que já existe em várias cidades do mundo.

Não é novidade esse tipo de conflito. Todo tipo de atividade já passou por isso ou ainda passará. É a inexorável teoria darwiniana que trata da sobrevivência dos mais aptos, dos mais competentes ou mais espertos.

O jornal passou por isso com o advento do rádio; depois o jornal e o rádio com a chegada da televisão e, creio, hoje todo mundo está se adaptando à força da internet.  A chave  para continuarem vivos é a adapção – quanto mais rápido melhor - ainda que se acotovelem por aí nas vielas da harmonia competitiva do mercado.

grande negócio pertence ao clube dos poucos, conduzido por megacorporações de forma global.

Os pequenos e médios negócios não escaparam: empresários olharam cada pequeno negócio e transformaram em negócio por atacado. Veja o que aconteceu, por exemplo, com as máquinas de cortar cabelo. Isso mesmo: máquina de cortar cabelo,antigamente usada apenas por barbeiros, hoje  produto  ao alcance de todos nas bancas da esquina, tudo chinês, e  faz, de cada um, um barbeiro ou cabeleireiro. Azar dos barbeiros e salões que tem que conviver com a concorrência ... Quem diria que uma simples máquina de cortar cabelo seria reinventada pelo marketing moderno capaz de produzir tamanho dano aos tradicionais salões, barbearias?

E os robôs que vêm tomando emprego de gente na indústria?  Melhor nem falar.   pavor generalizado nas ruas como se um exército de robôs tivesse baixado do além para desempregar humanos aqui na terra. Essa é a sensação.  A mesma, aliás, gerada no início da automação. Poucos se dão conta de que máquinas automáticas e robôs, sim, tomam emprego de pessoasmas requerem pessoas para fabricá-los, transportá-los, vendê-los, como a comunicar que precisamos evoluir, estudar mais, aprender mais, convivendo, afinal, com área de conforto cada vez menor.

A indústria de calçados se transformou com a chegada  do tênis e sapatenis, que combina com calça jeans e T-shit.  Essamoda sem data de validade  é autêntico prêt-à-porter que o século XX deixou como herança ao século XXI, hoje essa moda se harmoniza com tudo. Foi um escândalo  o artista famoso nos anos 80 se apresentar no teatro ícone com um costume cinza, monocromático, baita tênis igualmente cinza e chapéu Panamá. Uma heresia aos padrões da moda tradicional. Hoje, normal.

A internet subverteu a ordem. Abriu uma nova forma de como as pessoas passaram a ver o mundo  dentro dele se comunicar.

Nada disso não teria sido possível sem o telefone celular.  Ele trouxe todas as bibliotecas e arquivos do mundo para a palma das mãos e, sobretudo, agrega num único e minúsculo aparelho, calendário, agenda, fotos, máquina fotográfica, seu histórico de saúde, jogos, lanterna, bússula, calculadora, acesso a bancos, jornais e revistas de qualquer lugar do mundo, GPS, edição de planilhas e textos, várias formas de se comunicar, ao vivo e em cores, sem pagar um centavo às operadoras de telefone, oferecendo serviço cômodo e de segurança aceitável.  Veja quanto negócio foi afetado, de uma só vez, com o que foi disponibilizado de graça no celular!

O direito de espernear  o tal jus sperniandi - é justo e próprio, ainda que a expressão fajuta não encontre amparo no latim. Mas o curso da história é implacável. urbi et orbi” é a bênção papal “para a cidade (de Roma) e ao mundo”. Já o “uber” etorbi é o genérico da bênção que o marketing dos novos tempos anuncia a ideia de que qualquer “uber pode ser aplicado a qualquer cidade e ao mundo.  Hoje tudo sai de algum lugar para o mundo, não necessariamente de Roma.

- Pode isso, Arnaldo? Perguntarás.

Não pode mas é assim que as coisas funcionam nos dias que correm.  E como correm...

Quinta, 31 Março 2016 19:02

A dor da presença

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Era fim de tarde, andava olhando  pessoas na orla em busca de uma prosa.

Diferentemente de mim, as pessoas buscavam a paisagem do por do sol que agonizava no horizonte por trás dos barcos ancorados no cais.

Olhando para a cidade, num primeiro planoum grupo grande de bem-te-vis desafiava a gravidade num voointeressante descrevendo o desenho das copas das mangueiras jovens da praça. Parecia uma disputa pelo melhor lugar para passar a noite que descia lentamente sobre a cidade quente ouquem sabe, uma brincadeira última do dia.

Para aquele homem que caminhava na solidão dos forasteiros, prestes a voar para longe, aquele bater de asas eram acenos de despedida, como deferência àqueles que andam por aí, anônimos, a remoer saudades antigase construir saudades novas.

Esses bem-te-vis  tiveram também seus ímpetos de sair por aí voando ...e voaram.  Os homens também ensaiam seus voos, como aves novas, sem penas, asas frágeis, até que decolam, por fim. São voos de ida ou são aqueles de idas e vindas intermináveis. Lembro-me de um menino humilde e que também, lá atrás, tentava voar, visitar outras copas, como os bem-te-vis... Isso aconteceu.  Ali parado, no entanto, em frente ao ninho de suas origens, viu-se como um pássaro sem asas e, pior, sem bando, feito bicho triste, isolado...

A dor da saudade é suportável. A gente sempre encontra formas de domá-la, driblá-la, até esquecê-la.  A dorda presença é diferente.  É quando a realidade não se comunica mais com a gente, uma indiferençapersistente indisfarçável, desconcertante fracasso das tentativas de exumação dos velhos tempos. É viver semfontes, referências.

Não é a primeira vez que esse fantasma aparece diante de mim.  Mas é a primeira vez que consegui encará-lo e identificá-lo: é a dor da presença.

Segunda, 01 Fevereiro 2016 07:18

Barcos

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A brincadeira preferida da garotada era soltar barquinhos de papel na água que descia pelas sarjetas depois da chuvarada rápida.

Era uma espécie de arca de Noé. Sem nome, claro. Ali a turma acomodava mentalmente toda a tripulação, plantas e animais para poupa-los da punição das águas.

Aquele barco frágil era construído com vontade forte para vencer turbulências. Não tinha porto de destino definido. Não havia objetivo concreto. Levava sonhos de criança a mares desconhecidos e provocava reflexão sobre a imensidão de coisas que não cabem na cabeça de crianças mas que perambulam nos sonhos de todas as crianças que habitam em cada homem.

Tempo depois, surgem outros tipos de barcos. Eram de papel também. Agora tinham nomes, páginas numeradas e seus compartimentos chamavam-se capítulos e transportavam histórias criadas pelos homens para que outros homens pudessem atingir lugares nunca antes navegados, explorar recantos jamais visitados.

Nem sempre eram lugares concretos. Por vezes, apenas imagens longínquas, com riqueza de contornos, precisos e definidos, recheados de ideias de homens, mulheres e crianças, uma história de pontos para que cada imaginação fosse capaz de ligá-los, a bel-prazer, e daí retirar todo a vitalidade do enredo. Que maravilha!

Os livros são os barcos favoritos a quem gosta de viajar, ir mais longe. São eles que nos levam a novos lugares. Às vezes eles existem, de verdade.     França, Inglaterra, países do Oriente ... Outras vezes, são lugares criados pelo autor, cidades imaginárias e tão ou mais reais que as cidades tal como as conhecemos.

O barco solto a esmo numa lâmina de água qualquer, abarrotado de esperanças, marca apenas o porto de saída. Já o barco de papel com nome, páginas numeradas, é a nau de chegada e traz informações e todas as alegrias das chegadas.

Assim são pessoas que contam histórias como esta, barcos feitos de palavras, soltos por aí nas páginas dos jornais, revistas, e que viajam e escalam recepções de consultórios, empresas, onde indivíduos encontram casualmente suas respostas, repensam conceitos e realizam descobertas.

Segunda, 18 Janeiro 2016 17:12

Promessas

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Parece que nunca temos tempo suficiente para realizar o que precisa ser feito ao longo de um ano. Às vezes por preguicite crônica inexplicável ou por carência de recursos para a sua execução. É por isso que inauguramos o Ano Novo com planos e promessas na agenda.

O ano avança e entre botinadas e bordoadas, esquecemos das promessas e chegamos aos 45 do segundo tempo esbodegados.   É assim que chegamos em Dezembro e parece que o tempo tem entregue esse Dezembro cada vez mais cedo, a julgar pelo estado deplorável em que cruzamos a linha de chegada, sedentos de férias e festas...

Não há prorrogação dessa partida de 12 meses, nem tempo extra, nem disputa de pênaltis. Só mais uma nova partida de 12 meses para a realização dos desejos.

A primeira semana do ano tem área suficiente para abrigar todas as promessas: parar de fumar, maneirar na cerveja, aparar gordurinhas, arrumar aquela bagunça no quarto de “despejo”, praticar mais exercícios, ser uma pessoa melhor para si e para com os outros.

É por isso que o poeta Drummond classificou como genial o cara que conseguiu fatiar o tempo, industrializando a esperança. O começo de ano serve para relaxamento da musculatura, reidratação, reorganização tática, mas, principal e fundamentalmente, para recompor esperanças.

E é justamente aí que entram em cena as promessas com data precisa para começar mas sem data para conclusão. São planos. Não são metas claras, com prazos definidos; planos, apenas, e é por isso mesmo que a acabam encostados na “área de serviço” do tempo.

Nada desesperador. Agora que você lembrou que meta implica data para conclusão, aproveite o ano novo divertindo-se com aquilo que você deixou de realizar... afinal, eram apenas promessas!...

Segunda, 21 Dezembro 2015 16:21

Terreno baldio

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Há indignação entalada na garganta de cada brasileiro sobre a tragédia de Mariana, em Minas.  O rompimento da barragem destruiu vidas, devastou comunidades, assassinou o rio Doce e sua biodiversidade. Levou sede e desalento às populações da região e esse caldeirão de misérias chegou ao oceano Atlântico.  A proporção dessa devastação não tem precedente. Foi um assassinato à queima roupa, por assim dizer.

Logo após o fato, o “Brasil vigilante”, dedo em riste, apontava o valor da multa à empresa responsável primeira pela tragédia.  Isso não devolve vidas perdidas e pouco deve ser utilizado à recuperação da região. Pelo menos tem sido assim em tantas outras tragédias, como a da região serrana do Rio de Janeiro.

Há outras desgraças por aí e não vemos o dedo em riste no nariz dos responsáveis.   São crimes praticados lentamente, com requintes diários de crueldade, diante dos olhos indiferentes do Estado e da sociedade. Olhem o Tietê, o Pinheiros, a Bahia de Guanabara, áreas de mangue, e o meu Tapajós que fale por si só de seu sofrimento ... Quem foi o autor dessa destruição toda? Há muitos: indivíduos inescrupulosos, que despejam seus esgotos nessas áreas ou gananciosos irresponsáveis que contaminam o meio ambiente, aproveitando-se da miopia do poder público e da incapacidade de administrar, cobrar, fiscalizar...

Se isto tudo acontece nos centros ditos mais avançados do País, o que será que ocorre nas entranhas de regiões mais remotas onde o poder público não alcança?

Há uma forte ligação entre o desastre de Mariana e os deslizamentos de imoralidades que se estendem pelo Brasil afora e que a Lava Jato procura conter.  Esse lamaçal provoca estragos na natureza das coisas, nas pessoas, inviabiliza hospitais, escolas, estradas, portos  e sabe-se lá não ajuda a contaminar a sociedade brasileira com a ideia de que a bandalheira compensa.

Ainda não sabemos como e quando vamos encontrar solução às nossas mazelas. A verdade é que há muita lama por todos os lados, água parada, Aedes aegypti, dengue, chikungunya, zika vírus, microencefalia. Que zica!   Pobre País que se fez baldio em 2015!...

Quinta, 19 Novembro 2015 10:45

Tipuana

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Aqui e ali, um túnel de tipuanas em alamedas, ruas e avenidas. Plantadas nas décadas de 20 e 60 do século passado, hoje são senhoras respeitáveis, troncos e galhos cobertos de uma espécie de samambaia baixa, tipo grama, epifitismo que confere beleza adicional à espécie. Originárias da Argentina e Bolívia, parecem nativas na paisagem paulistana.

Tinha uma tipuana por aqui na vizinhança, desgarrada do bando, sufocada pelo cimento da calçada, vergada sobre a rua. A copa abundante acariciava a maçaroca de fios.

Essa velha senhora caiu na quarta passada e foi eletrocutada pela fiação que, em curto, denotou explosões sequenciais de transformadores na tarde escura que parecia noite. Ela andava adoentada, uma espécie de cupim na base do tronco. Causa mortis : temporal. Causa mediata: a precariedade do serviço de prevenção e eliminação de pragas, como fracasso fatal do SUS das árvores.

Não foi só a velha senhora que partiu desta para a condição de lenha. Foram mais de 30 no bairro e cerca de 70 por todos os cantos da cidade. Qualquer temporal que se preze põe no chão dezenas de árvores, a maioria anciãs e enfermas.

A primeira consequência da queda de árvores é suspensão de fornecimento de energia e os transtornos corriqueiros: elevador, interfone, telefones (agora muitos são elétricos), internet, computador, televisão, celulares (onde recarregá-los?),geladeira, relógios digitais piscando, semáforos embandeirados, carros amassados, casas comprometidas... um corre-corre.

Depois, o custo. Uma equipe de cinco pessoas da companhia de energia elétrica chegou no meio da tarde, trabalhou até as 5 da manhã, para tentar reconstituir o sistema elétrico.

Pela manhã, chegou a vez dos bombeiros para cortar a árvore com todo o cuidado para não danar o que restou da fiação. Um terno deu duro por mais de 4 horas para despedaçar a árvore frondosa. Em seguida, veio a prefeitura para a remoção de galhos e folhagens que impediam a circulação de veículos e até mesmo para desobstrução de garagens. Mais 3 horas. Por último, uma equipe de cinco homens e motosserras para por no caminhão os troncos pesados.

Será que você, leitor, sabe por que enfrentamos contratempos dessa natureza?

Porque Isso não é acidental, como parece; é fruto de negligência. É evento preparado com data em aberto para ocorrer, à espera da ocasião. Tem algumas catástrofes com dia e hora para ocorrer, tal a previsibilidade gerada pela falta de manutenção preventiva. O lamentável acidente de Mariana que o diga. Os governos, em geral, administram por espasmos, sustos. Ocorreu ? Corre lá, depressa! E na emergência, urgência, sabe como é que é, tudo sai sempre mais caro!

As tragédias são contadas em capítulos, diariamente, porque há ausência continuada de comprometimento com a coisa pública e o bem comum. É por isso que há doentes espalhados no chão da Saúde, mortes que poderiam ser evitadas, guerra nas trincheiras do trânsito ou simplesmente pessoas acorrentadas à penitência de buscar direitos enroscados na burocracia, arte de driblar para emperrar, dificultar, com claro objetivo de alimentar a indústria do jeitinho, da corrupção.

Se não cuidamos das pessoas, como cuidar de árvores? A velha tipuana foi apenas mais um evento dessa dízima periódica perversa...

 

Quarta, 21 Outubro 2015 15:07

A pressa

Escrito por Rosélio da Costa Silva

A pressa paulistana deve ser a precursora da banda larga 4G.   Ainda assim, o paulistano continua mais rápido. Aqui todo mundo corre. E o drama da mobilidade urbana só põe mais velocidade nas pessoas:

- corro porque tenho 4 conexões e se perder 15 minutos em cada uma meu atraso será de 1 hora! Disse um apressado, certa vez.

Nas escadas rolantes, justamente colocadas para “rolar” as pessoas para cima ou para baixo, com conforto, a faixa da esquerda é reservada aos apressados que transitam saltando os degraus de dois em dois... Há lugares com indicação que se deve “deixar a faixa da esquerda livre”. É o amparo à pressa.

Não bastasse os motoqueiros que tomaram domínio da faixa da esquerda das avenidas, quero dizer, não é bem da faixa de rolamento mas o traço que separa a última faixa, agora, acabou o sossego na pista da esquerda em todos os lugares: há sempre um apressadinho correndo como se quisesse tirar o pai da forca e muitas vezes acaba levando junto um “retrovisor” qualquer!

É uma loucura. E nisso vai-se o que resta de urbanidade, civilidade, cordialidade, delicadeza, se é que de fato essas coisas existiram um dia no mundo dos apressados.

Talvez a única coisa que funciona sem pressa e agonia, em São Paulo, é a fila. Acho que o País inteiro já se submeteu ao cabresto da fila com senha. Se o Brasil ainda está na idade da pedra, em alguns quesitos, a fila é digital faz tempo! É outra instituição pétrea. Não há perguntas, discussões. O ponto para retirada da senha está devidamente marcado e a senha propriamente dita não oferece espaço para perguntas, manobras, trapaças.

A fila na Itália, nos ambientes que ainda não tem senha, painel eletrônico e tudo mais, é organizada no grito em pleno século XXI:

- chi é l’último?

- sono io!

E aí você já sabe que depois daquele cara de camisa amarela ou depois daquela senhora de cabelo vermelho é você.

Em países com mais ordem, mais organização, como a Alemanha, as filas são muito pequenas e não há privilégios.   Tudo seguindo o catecismo da eficiência...

Os celulares vieram para expressar, digitalmente, a pressa. Andam por todos os lados, ocupadíssimos. O paulistano precisa mandar mensagens urgentes. Precisa postar fotos, paisagens, tirar um sarro do amigo cujo time perdeu na última rodada, ou simplesmente postar uma sacanagem qualquer. Há uma necessidade urgente para falar com as pessoas o tempo todo, postar, aguardar o curtir com desesperada urgência. Temos que estar sempre digitando, seja um joguinho, comentário ou simplesmente folheando as fotos...

Essa pressa toda é dedicada à esperança de encontrar o que tanto se procura e, no desespero da urgência, acabamos chegando à conclusão da carioquíssima máxima que o “problema da pressa é a afobação”. E nessa afobação toda perdemos o trilho, a trilha, objetivos, como a reafirmar a solidão coletiva...

Sexta, 25 Setembro 2015 09:26

Quarta Lei de Milton

Escrito por Rosélio da Costa Silva

Diante do grande incêndio moral que tomou conta do Brasil me lembrei das origens da farra com o dinheiro público.

Essa imoralidade nasce do que cunhei aqui, neste texto, como a Quarta Lei de Milton. Segundo Milton Friedman (1912-2006), economista da escola de Chicago, há quatro maneiras de gastar dinheiro.

A primeira, é quando a gente gasta conosco mesmo, ponderando detidamente a necessidade, o momento, o custo e o benefício do bem ou serviço a ser adquirido.

A segunda maneira é quando a gente mete a mão no bolso para gastar com os outros. Quando queremos oferecer um presente, agimos com mais cuidado, avaliando a nossa relação com a pessoa a quem se destina o regalo e, logo, determinamos com precisão milimétrica o quanto devemos ou podemos gastar.

Quando gastamos o dinheiro dos outros conosco mesmo estamos exercendo a terceira modalidade. Aqui os espíritos mais moderados, mais contidos, ultrapassam os limites da frugalidade e se permitem voos mais ousados enquanto os afoitos e aproveitadores refestelam-se nas espreguiçadeiras dos superlativos.

A quarta lei de Milton é, finalmente, quando gastamos o dinheiro dos outros com os outros, como é o caso do papel dos governos federal, estadual e municial! A preocupação com o custo e o benefício perde objetividade, desce ralo abaixo. As administrações públicas menos organizadas, mais rudimentares ou mais tribais, entregam, sem constrangimentos supérfluos, sempre o pior ao pior preço, já que o preço deve contemplar benefício a todos os elos da grande farra!

É por isso que na hora do aperto, os governos criam impostos em vez de cortar gastos ou racionalizar a gastança. Não querem nem perder privilégios nem derrubar a Quarta Lei de Milton.

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