Lúcio Flávio Pinto

Por livre e espontânea vontade, o deputado Márcio Miranda ofereceu aos eleitores do Pará um forte motivo para não votarem nele, se querem levar à prática o discurso de moralização da vida pública brasileira.

O Repórter 70 da edição de hoje de O Liberal (ainda a voz do dono) informa: "Caso Márcio Miranda chegue ao governo do Estado, poderá lançar a filha do governador Simão Jatene, Izabela, como sua sucessora".

O valor de um compromisso desses é, no mínimo, temerário, quando não absolutamente inconfiável.

O general João Figueiredo, o último presidente da república (1979/85) no regime militar de 21 anos, teria que ser imensamente grato ao seu antecessor, a quem devia o mandato. Geisel, ao patrocinar Figueiredo, pensava em se tornar o condestável da república (como o general Góes Monteiro foi de Getúlio durante a ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945). Mas Figueiredo nunca foi ao gabinete de Geisel no Rio nem ao seu sítio, em Petrópolis.

Lula tinha o mesmo objetivo ao impor a candidatura de Dilma Rousseff à sua sucessão. Diga-se, em defesa do ex-presidente, que ele sabia da incompetência da afilhada, que trabalhou ao seu lado no Palácio do Planalto. O que desconhecia era a dimensão abissal desse despreparo, resvalando para aquilo que Marx chamava de "idiotia rural". Quando tentou evitar que ela fosse a um segundo mandato, Dilma reagiu, animada pela energia afrodisíaca de quem chega ao poder.

Então liberou seus auxiliares para garanti-la, desde que se isolassem dela, como  se fossem portador de doença altamente contagiosa (e é mesmo: a corrupção), método de preservação que deve ter copiado do divino mestre, para a mais cara campanha eleitoral à presidência da república brasileira. Ficou, mas só por mais um ano e meio. A conta ainda vai precisar ser paga pelos próximos anos. Por Lula, na cadeia.

É nesse contexto que o compromisso do presidente da Assembleia Legislativa do Estado deve ser relativizado. O fenômeno mais comum, principalmente em política, é o afilhado trair o padrinho (e o feitiço - da eleição graças ao uso da máquina pública - se voltar contra o feiticeiro), mesmo quando acontece em família partidária, como aconteceu no PSDB entre Almir Gabriel e Jatene, um acusando o outro de Judas.

Pior do que Márcio Miranda se tornar exceção à regra e cumprir o prometido é justamente fazer o que diz que fará. Já vi muita transação entre o poderoso que está no cargo e o que pretende assumi-lo, inclusive o candidato a novo poderoso colocar ao seu lado, na chapa de titular e vice do cargo. parente do detentor da chave do cofre público e da caneta que assina nomeação de funcionários., a mais usada e exitosa ferramenta de seduzir e convencer eleitor

Jamais testemunhei, porém, uma oferta da sucessão como esta, que implica a desistência do futuro (ou quase futuro) governador declarar que a rebenta do padrinho será a sua sucessora, para embevecer e convencer o pai a entrar de cabeça (nesta circunstância, jamais erguida) na campanha, descartando quaisquer escrúpulos da consciência. O que implica numa segunda renúncia: não tentar a reeleição, a joia da coroa desde que o terrível instituto foi posto nas ruas por FHC, o homem pragmático que assassinou o sociólogo ao chegar ao paroxismo da vaidade.

Em matéria de nepotismo, o deputado do DEM se excedeu: está se dispondo a pagar, ao governador do PSDB, pelo cargo que ele ocupa, o preço mais caro já oferecido nesse tipo de transação de que tenho conhecimento na república brasileira. É ágio recorde no país da corrupção.

Com a palavra (e o voto), o distinto eleitor.




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Última modificação em Terça, 10 Abril 2018 14:22