Lúcio Flávio Pinto

Em 1981, o governo federal criou e começou a implantar o Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil o Polonoroeste, entre Rondônia e Mato Grosso. Pavimentando e asfaltando a BR-364, que ligava o resto do país a essa região, o objetivo era assentar migrantes numa área de 410 mil quilômetros quadrados, ou quatro milhões de hectares. Os solos mais férteis da Amazônia sustentariam uma nova classe média rural e levariam o progresso a um dos extremos territoriais do país.

Como o empreendimento seria financiado pelo Banco Mundial, com 411 milhões de dólares (valor da época), seus técnicos, ao analisar o projeto, ficaram chocados: nenhuma linha sobre a proteção da natureza. O governo teve que introduzir um capítulo ecológico à sua retórica desenvolvimentista.

Na mesma época, o BIRD iria financiar o Programa Grande Carajás, que representava a multiplicação de investimentos – em atividades produtiva e logística – a partir do embrião da exploração de minério de ferro pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce.

Na leitura do projeto, os técnicos do banco descobriram que nada estava previsto sobre o impacto da principal obra, a ferrovia de 870 quilômetros, sobre as populações indígenas às suas margens. O governo teve que criar um capítulo indígena no “Carajazão”.

Se tudo dependesse de burocratas e executivos, essas empreitadas teriam sido muito mais destrutivas do que acabaram sendo. Tanto na escala de intensidade quanto na sua dimensão espacial. Os novos bandeirantes ou capitães do mato da ocupação a toque de caixa da Amazônia, pela doutrina de segurança nacional (sob o lema “integrar para não entregar”), ignoravam o nativo e o seu meio ambiente.

O Banco Mundial, fora do Brasil, seria uma das consciências críticas desse incrível processo de expansão de fronteiras econômicas. Grilo Falante a ser ouvido, pelo detalhe de que fornecia parte do dinheiro necessário párea realizar o que estava previsto pelos “projetos de impacto” do regime militar.

A outra consciência crítica, esta interna, seria o Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que era vinculado diretamente à presidência da república. No governo do general Geisel, a mais tecnocrata das gestões militares, o Ipea era sustentado e protegido pelo economista piauiense João Paulo dos Reis Velloso, ministro do Planejamento.

Em 1975, catando informações sobre o plano quinquenal elaborado para a Amazônia a partir desse ano, fui ao Ipea, em Brasília. Ao entrar numa sala, tomei um susto. Entreouvi alguém dizer Marx. Já ia fechando a sala, assustado. A curiosidade foi maior. Voltei a abri-la. Convidado a entrar, assisti a uma excelente aula sobre a teoria econômica marxista. Depois voltei ao exterior, ao mundo real da repressão a tudo que soasse ou cheirasse a esquerda.

Não naquela bolha intelectual. Ali havia liberdade quase plena de pensamento e expressão. Tenho para mim que Velloso se imaginava um iluminista nas trevas castrenses e se preocupava com sua biografia. Inteligente, sagaz e culto, preparava um nexo de respeitabilidade científica e acadêmica que serviria de ponte para o futuro, quando o país voltasse à democracia. E conseguiu: tornou-se o mecenas do Fórum Brasil, um dos mais qualificados locais de discussão em alto nível sobre o país.

A Amazônia foi um tema particularmente caro ao Ipea. Um dos seus estudos, sobre a colonização oficial dirigida, com o assentamento de ambos os lados de estradas federais amazônicas de colonos atraídos de outras regiões do país, se tornou um clássico na bibliografia regional. Dentre outros méritos, por ser extremamente crítico ao que o patrão do instituto fazia, apontando os seus muitos e evidentes erros.

Tanto em Brasília quanto em Washington, o que não faltava eram estudos bem feitos sobre o que estava acontecendo naquele mesmo momento na Amazônia. Na sede do BIRD, em 1984, uma técnica alemã do banco me franqueou o acesso aos relatórios confidenciais sobre Carajás, com uma única condição: eu não podia ter comigo caneta e papel para anotações, Tive que ler e memorizar, o suficiente para permitir um “furo” de reportagem.

Quando presidente eleito pela primeira vez, em 2002, mas ainda não empossado, Lula elogiou o planejamento dos militares na Amazônia. Disse que eram sérios e competentes. Iria inspirar-se neles. Nisso, cumpriu a palavra: os 14 anos de PT no topo do poder nacional foram, em matéria amazônica, culminando com o Programa de Aceleração do Crescimento, aplicado em todo país, reeditariam a ofensiva feroz sobre a natureza e o homem da Amazônia. A versão petista da hidrelétrica de Tucuruí foi a de Belo Monte, projetada para substituí-la na condição de quarta maior do mundo.

É certo que Rondônia, mesmo com a atenção imposta à floresta, se tornou o Estado da Amazônia com o maior percentual de destruição, de 28, 5%, em relação ao seu território. Quase não é mais amazônico. Mas o projeto de proteção à BR 163, que se toca com a BR-364, não é melhor do que o Polonoroeste, tantos anos depois.

Também é verdade que os índios têm sido massacrados ao longo da ferrovia de Carajás, mas seria pior sem uma pressão internacional com o peso dos milhões de dólares que controla.

A Amazônia é o Brasil tardio, mas nasceu internacionalizada. Se o fluxo internacional de capital a explora, sua esperança está também na existência de uma corrente internacional de conhecimento e solidariedade. Ou dificilmente seu futuro será melhor do que o seu presente e o seu passado.

(Publicado no site Amazônia Real)




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Última modificação em Quarta, 11 Outubro 2017 17:04