Lúcio Flávio Pinto

Ao defender uma solução militar para a crise brasileira, o general Antonio Hamilton Mourão, secretário de finanças do exército ,não é lunático ou extravagante, nem está só. Milhares ou milhões de pessoas ainda pensam no uso das forças armadas para desfazer o Brasil atual, manchado de corrupção em todos os níveis do poder público, e refazer um país mais saudável e positivo. Não é por acaso que o capitão reformado e deputado federal Jair Bolsonaro é presidenciável.

Essa “solução” foi tentada diversas vezes e nunca deu certo. Mesmo quando realmente mudou o Brasil, como em 1930, o preço foi alto: abriu caminho para um militarismo que até então não conseguira se estabelecer. Ele se originou em uma manobra de bastidores que derrubou o imperador Pedro II através de um golpe de mão à surdina noturna, que se repetiria desde então, em diversos horários.

Só quem já passou por uma ditadura, sejam as nossas, militares e de direita, ou de esquerda, as asiáticas, no leste europeu ou caribenhas, está vacinado contra novas aventuras. Elas desestabilizam o país, geram processos autofágicos e violenta o espírito de liberdade, criatividade e ousadia sem o qual uma nação, que pode até crescer, nunca dará certo como civilização.

Em palestra numa loja maçônica em Brasília, cenário talvez adequado para a sua peroração, o general sugeriu que pode haver intervenção militar caso o judiciário não consiga resolver “o problema político” causado pela corrupção endêmica revelada pela Operação Lava-Jato. Os militares podiam impor essa intervenção, mesmo sabendo que “essa imposição não será fácil”.

O general tem todo direito de pensar assim, mas a legislação militar veda a oficiais manifestações sobre o quadro político-partidário sem autorização expressa do Comando do Exército. É ato de indisciplina e quebra de hierarquia, o mesmo em que se basearam os responsáveis pelo golpe de 1964 para depor o presidente João Goulart, depois que ele radicalizou o apoio institucional a uma greve de soldados e marinheiros, culminando uma série de erros políticos graves ou infantis que cometeu.

O general não parece ter grande influência nem representar guma corrente preponderante no exército, embora a posição de um oficial de quatro estrelas, no máximo da carreira, dê eco às suas declarações.

Talvez ele queira se projetar em fim de carreira para algum projeto pessoal. Em 2015, fez duras críticas à classe política e exaltou a "luta patriótica" . Por isso, foi destituído do comando da região Sul.. Desde então, ficou sem ligação com a tropa, em cargo burocrático.

Mas é um mau presságio. Quem colocou as tropas nas ruas para derrubar Goulart, sem esperar pela voz de comando dos líderes da conspiração contra o presidente, o regime e a democracia, foi o general Olympio Mourão Filho. Ele acreditava em astros e forças do além. Precipitou a saída da sua força de Minas Gerais para o Rio de Janeiro porque a lua estava favorável.




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